quinta-feira, 1 de abril de 2010


s vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem dizer nada, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. às vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem para dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a dizer. e mesmo que a voz trema por dentro há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração a bater desordenadamente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido e esperar... esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade. às vezes é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e que afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e que um dia também teve o seu fim. às vezes mais vale desistir do que insistir, anular do que desejar, arrumar do que cultivar, esquecer do que querer. no ar ficará sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que deveria ser, somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, melhor. às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo e voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e mandar tudo borda fora, queimar as cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo e a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora. às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. e partir para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer , investir... porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho mesmo que não haja caminho, porque o caminho se faz a andar. o sol, o vento, o céu e o mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza de que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. 
quem fica, fica a ver, a pensar, a lembrar. até se conformar e um dia então, ESQUECER."

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